Sheisa Amaral · Conto
Babador Rosa
Nasce uma mãe e nasce uma culpa. Silvia já conhecia o ditado antes de ser mãe, mas, ultimamente, esse sentimento tinha crescido como o broto de feijão no algodão daquela experiência escolar. Todos os dias, uma gotinha de culpa caía no seu humilde algodãozinho e, agora, a caminho do centro da cidade pela primeira vez sem a bebê, ela se sentia numa floresta de raminhos de feijão que, regada por ela, saíra completamente do controle.
Silvia devia mesmo estar com um semblante preocupado, porque uma senhora no ônibus sorriu e perguntou:
— É a primeira vez que sai sem sua bebê?
Silvia olhou, surpresa. Era cientista, não costumava acreditar em superstições, mas, desde que Olivia nascera, sua vida dera um giro completo. De modo estranho, fazia sentido que a senhora de muitos colares à sua frente fosse vidente.
— Como a senhora sabe disso?
A senhora deu uma risada gostosa:
— A maneira como você segura esse babador rosa, e a cara de quem vai à guerra, não deixam muita margem à imaginação.
Silvia levou o babador ao rosto, instintivamente, e sentiu o suave cheirinho de Olivia.
— É, sim. Primeiro, a licença-maternidade; depois, as enchentes, e a universidade trocou tudo para o remoto. Já faz mais de três meses que todos voltaram, e as minhas desculpas finalmente acabaram.
Falava da monumental enchente que acometera o sul do Brasil. Morando na capital e trabalhando a 120 quilômetros dali, ela viu estradas paralisadas por meses, assim como o único aeroporto internacional da região.
Há algo que você precisa saber sobre Silvia antes de decidir se torce por ela. Apesar de sofrer ao ver o caos à sua volta e de ter ajudado como voluntária — de casa, nas redes sociais de uma ONG de proteção animal, distribuindo doações e ajudando responsáveis a localizar bichos —, uma parte dela gostou daquele imprevisto, porque pôde trabalhar de casa e ficar com a bebê.
Antes de odiá-la por isso, saiba que ela tinha plena consciência do erro e chorava no banheiro todas as noites, sufocada pela culpa. Quando a casa foi destelhada pelas chuvas, teve certeza de que era punição divina. Nem reclamou. Dizia a todos que não se sentia bem reclamando de um mísero telhado quando amigos próximos haviam perdido tudo. Mas a verdade é que sentia culpa por experimentar alívio, abraçada à filha dormindo tranquila, enquanto o mundo explodia lá fora. Perdeu-se nesses pensamentos até ouvir a senhora repetir a pergunta:
— Quantos meses ela tem?
— Um ano — respondeu, rápido.
— Um ano? E é a primeira vez longe dela?
— É que ela quase não se alimenta além do peito.
— Com um ano?
O comentário, embora amistoso, atravessou Silvia como agulha fina. Cada palavra ecoava o mantra invisível que lhe martelava a cabeça havia meses: Você não está fazendo o suficiente. O algodãozinho da culpa, que antes era experimento inocente de infância, virara teia espessa e grudenta, envolvendo-lhe os pulmões a cada respiração. Olivia ainda dependia do peito e aquilo — que, em outros tempos, seria celebrado como vínculo sagrado — agora pesava como acusação.
Conselho era o que não faltava. Desde os seis meses de Olivia, o mundo parecera reunir-se numa cruzada não solicitada. As amigas do trabalho postavam papinhas coloridas no Instagram, com hashtags sorridentes: #AlimentaçãoSaudávelDesdeOBerço. A ex-colega do mestrado — a que sempre competia por bolsas e publicações — publicou um vídeo em câmera lenta do bebê de sete meses devorando meio abacate. A legenda estampava Primeira tentativa e já ama! #BLWSucesso #OrgulhoDaMamãe. O garotinho, de babador completamente sujo, abria a boca como passarinho faminto. Olivia, com um ano, recusava até uma mísera colher de abóbora. Bastava lembrar e a vida esfregava sal na ferida. E ela mal tinha tempo de se lamuriar, porque uma vozinha invadia seus pensamentos:
— Tete!
Era sempre assim. Olivia arqueava as sobrancelhas, empurrava a colher com força desproporcional aos bracinhos rechonchudos, como se purê de maçã fosse veneno. Depois, estendia as mãos a Silvia, dedinhos abrindo e fechando num gesto entre súplica e revolta. Tete — a palavra mais doce e mais amarga daquela guerra silenciosa.
Enquanto isso, a mãe de Silvia mantinha o ritual das ligações diárias. No meu tempo... — começava, com o ruído da panela de pressão ao fundo. Os bebês comiam tudo batido no liquidificador. Seu irmão comia um pratão aos seis meses!
Não adiantava explicar que seguira à risca o método BLW, oferecendo pedaços inteiros de alimento. Ao redor, todos achavam bobagem. Nos piores dias, a cozinha virava laboratório de derrotas. Quinoa com manga, abobrinha ralada, purê de beterraba que manchou o avental de roxo: tudo testado. A cunhada sugeriu “fome controlada” (Deixa ela sem mamar, vai ver como come!); a amiga vegana jurou que o problema era energia negativa dos industrializados; até o pai de Olivia, em raros momentos de envolvimento, arriscou: Não é só dar na boca, amor? — como se ela estivesse decifrando a teoria das cordas, e não alimentando uma criança.
Até a pediatra, com frieza clínica, sentenciou: precisamos estimular mais, marcando a frase com um clique seco de caneta. Silvia anotou tudo, como boa cientista, criando listas e cronogramas — nenhum método funcionava. Olivia cuspia, chorava, arqueava o corpinho em protesto. Cada fracasso era faca na autoimagem de Silvia: a pesquisadora metódica, acostumada a resultados, derrotada por uma colher de abóbora.
A solidão, disfarçada de sororidade, doía. Nos grupos online, histórias de bebês que adoravam brócolis pipocavam como fogos de artifício, enquanto ela navegava em silêncio, mastigando vergonha. Até Marina, colega de laboratório que jurara nunca ser “mãe chata”, enviou receita de mingau com a mensagem Funcionou com o Pedro! Silvia apagou a conversa sem responder. A maternidade parecia um clube secreto: todas sabiam a senha — menos ela.
Por isso, a senhora do ônibus, sem saber, tocara na ferida mais profunda. Silvia, porém, fingiu indiferença:
— Ela está se tratando com um nutrólogo. Estamos acompanhando.
— Ah, pobrezinha. E como vai ser? — perguntou a senhora. — Você congelou o leite?
Silvia respirou fundo, preparada para novas críticas:
— Não. Olivia não se adaptou a nenhum bico. Nem o meu leite ela aceita na mamadeira.
— Ah! — a senhora a olhou com compaixão. — Agora entendo seu olhar. Mas vai dar tudo certo.
Silvia estranhou. Estava tão acostumada a receber conselhos e críticas que não esperava encontrar compreensão.
— O meu mais velho teve muita dificuldade em largar a fralda. Ele simplesmente parou de fazer cocô.
Silvia sorriu. Há algo de mágico na troca de experiências quando vêm sem soberba.
— Primeiro, tirou a fralda e decidiu que não ia usar mais. Depois, odiou o penico. Foram meses de sofrimento, dor, choro, mas passou. Tudo passa. A saudade dele morando em casa é que fica.
Sem perceber, Silvia pegou a mão da senhora. Trocaram um olhar cúmplice.
— Sua bebê vai comer — disse a senhora. — Não é possível que mame quando for para a faculdade.
— Obrigada — disse Silvia.
— Qual o seu nome? — perguntou, em seguida, percebendo que ainda não sabia o da senhora.
— Leocadia — respondeu, pronta. — E o seu? Mãe da Olivia?
Um arrepio percorreu a espinha de Silvia.
— Meu nome é Silvia — disse, ainda em choque. — Mas… não acredito que a senhora se chama Leocadia.
A senhora arqueou levemente as sobrancelhas, talvez para tranquilizá-la, mas o gesto produziu o efeito contrário. Havia alguma coisa errada naquele sorriso. Silvia olhou para a porta, e ela imediatamente percebeu seu desconforto e se levantou.
— Eu vou indo. Boa sorte com a bebê.
Desceu rapidamente, desaparecendo na multidão, para o alívio de Silvia.
Ela segurou o babador contra o coração, como se aquele pedaço de tecido carregasse tudo que ela precisava para se defender do mundo. O cheiro adocicado da filha ainda estava ali, misturado a um leve aroma de leite. Inspirou fundo, querendo guardar aquele cheiro dentro de si para o dia.
O ônibus reduziu a velocidade; ela estava perto do ponto. Na estação de trem, entrou quase sem perceber e ocupou um assento junto à janela. Encostou a cabeça no vidro frio e fechou os olhos por um instante. A ansiedade crescia como nó no estômago. Sabia que a chefe seria compreensiva: desde a gravidez, a mulher demonstrara paciência, ajustando prazos e permitindo contribuições remotas. Gratidão, porém, não anulava a sensação de fraude. Como bolsista de doutorado e participante sênior do laboratório de inclusão, esperava-se dela comprometimento total. E o que entregava? Relatórios às pressas, reuniões por vídeo interrompidas por choramingos, leituras entre mamadas e noites mal dormidas.
Os últimos dois anos foram um emaranhado de tentativas falhas de equilibrar maternidade e carreira. Ali, no trem, a realidade a golpeava.
Dez horas.
Dez horas longe de Olivia.
Dez horas em que a bebê talvez choraria de fome, recusando alternativas ao peito. Dez horas em que outra pessoa tentaria acalmá-la, niná-la, distraí-la — e Silvia não estaria lá.
A conversa com Maria Conceição deveria confortar. Repetiu para si que tudo passa, que Olivia não mamaria para sempre, que um dia riria da preocupação. Nada soou verdadeiro. A mente povoou-se de cenas que a atormentavam: a bebê inquieta, chorosa, recusando alimento; o cuidador tentando distraí-la sem sucesso; as horas arrastadas até que Silvia voltasse, recebendo um olhar ressentido da filha.
Apertou o babador com mais força, como se pudesse protegê-la desses pensamentos.
O trem seguiu. As casas e ruas passavam rápidas, indiferentes. Em poucas horas, estaria no laboratório, diante da orientadora, discutindo artigos e metodologias. Precisaria recompor-se, manter postura profissional, mostrar que ainda era a acadêmica dedicada de sempre. Por dentro, contaria os minutos para voltar para casa. Porque, por mais que amasse a ciência, nada parecia mais difícil do que ser uma boa mãe e, ao mesmo tempo, continuar sendo Silvia.
Uma moça mais jovem sorriu e perguntou:
— Que idade tem sua bebê?
Silvia olhou para as próprias mãos: o babador chamava atenção.
— Um ano.
— É o seu primeiro?
Ela suspirou. Sabia que viriam mais comentários. Sempre vinham.
Sim, Olivia era a primeira filha, nascida dois meses antes de Silvia completar 40. A gravidez tardia era tema recorrente em olhares alheios, carregados de julgamento velado ou de preocupação disfarçada. A verdade é que Silvia planejara a maternidade com a precisão de um experimento. Anos estruturando a carreira, conquistando estabilidade, fortalecendo o relacionamento com o marido, garantindo maturidade emocional e recursos. O plano era claro: engravidar aos 37.
Então, o mundo parou.
A pandemia transformou cidades em cenários apocalípticos e trouxe medo avassalador. Como trazer uma criança ao mundo com hospitais sobrecarregados e um vírus desconhecido? Silvia e o marido ponderaram e decidiram esperar. Para eles, confinamento não era convite para “deixar acontecer”, mas sinal de adiar.
Em vez de testes de gravidez, vieram livros sobre parentalidade consciente. Em vez de pré-natal, discussões sobre divisão de tarefas, criação com apego, educação emocional, desenvolvimento infantil. Não seriam pais por impulso.
A preparação meticulosa, porém, não blindou julgamentos. Abriu outra frente: o “crime” de ser mãe de primeira viagem aos 40.
A sociedade nunca parecia satisfeita. Se fosse mais nova, faltaria maturidade. Se tivesse filhos sem planejamento, a irresponsabilidade seria o foco. Engravidar tarde e de modo consciente, para muitos, parecia falha grave.
Perguntas vinham de todos os lados:
— Você não tem receio de não ter energia para acompanhar uma criança?
— Coragem! Tive o meu aos 25 e já fiquei exausta!
— E se ela quiser um irmãozinho? Vai ter pique?
E as insinuações sobre fertilidade, como se não pudesse ter engravidado naturalmente:
— Fez tratamento, né? Hoje em dia tem tantas opções!
— Que sorte! Conheço tantas mulheres da sua idade tentando há anos…
Silvia aprendia, dia após dia, que a maternidade não era apenas criar um filho. Era também se defender.
Via casais que tiveram filhos durante a pandemia justificarem escolhas com discursos românticos. Para ela e o marido, soava frágil. O confinamento não dificultava administrar métodos contraceptivos. Ter filhos era decisão que exigia planejamento, não consequência das circunstâncias.
Ironia: o mesmo mundo que criticava a impulsividade de uns condenava a prudência de outros.
Com o trem em movimento, Silvia refletia de onde vinha a culpa que carregava: da idade, da escolha de esperar, da dificuldade de introduzir sólidos, de cada decisão que, de alguma forma, parecia errada aos olhos de alguém.
Olhou para o babador contra o peito, como amuleto. Pequeno, macio, impregnado do cheiro doce da filha. Um símbolo de uma fase que escorria pelos dedos.
— Esperei a vida inteira para ser mãe. E, agora, parece que todo mundo tem algo a dizer sobre isso — murmurou para si, sem perceber que a voz vazou no ruído do trem.
O alto-falante anunciou a próxima parada e a sacudiu dos pensamentos. Ao lado, uma jovem de rosto tenso, uma mão na barriga arredondada, olhava fixa para Silvia, como se buscasse ali respostas para suas angústias.
Silvia reconheceu aquele olhar. Medo, expectativa, a tentativa de se preparar para algo para o qual ninguém está pronto. Sorriu com empatia e respondeu à pergunta feita instantes antes, quando ainda estava longe em seus pensamentos:
— Sim, é a minha primeira. Planejamos muito… para enfrentar uma pandemia, uma enchente, a perda do carro para as águas… e uma bebê que não quer nada além do peito.
A moça arregalou os olhos, um leve desespero tomando o rosto.
Silvia riu baixinho, balançando a cabeça:
— Não me entenda mal. Eu não faria nada diferente. Qualquer escolha me levaria a outro lugar que não o de ser mãe da minha bebê.
A mulher relaxou, um sorriso tímido brotou. A mão deslizou até a barriga, num gesto de proteção e carinho.
— Tudo o que a gente escuta sobre amar um filho… não corresponde nem de longe ao que é, né?
O que ela disse parecia certo, exatamente o tipo de frase que se espera ouvir numa conversa dessas, mas Silvia percebeu um arrastado estranho nas palavras. Por um instante — talvez engano, talvez cansaço — teve a impressão de ver um sombreado esverdeado entre os dentes da moça. Silvia piscou rápido, sem saber se era impressão ou luz, apenas consciente de que algo ali escurecia a frase que deveria confortar.
O trem parou. A porta se abriu. A jornada de Silvia naquele dia ainda estava longe do fim. Na fila do ônibus que a levaria à universidade — a terceira condução antes das nove da manhã —, ela guardou o babador. Não queria outra gangorra emocional pensando em Olivia e em como estaria. Talvez aceitasse banana amassada com o suplemento; às vezes aceitava algumas colheradas. A mãe ainda não mandara notícia — deviam estar dormindo.
No velho ônibus de banco de couro rasgado, Silvia pensou no quão precário era o transporte no interior. Uma pequena coisa, quando se põe na balança a segurança, a limpeza e outras vantagens. Amava a capital — bares, circuito de arte, cena cultural —, mas, agora, prioridade eram os pequenos e a segurança deles. Por isso, ela e o marido juntaram economias, venderam o carro e assumiram um segundo financiamento. Iriam morar num condomínio horizontal de alto padrão, com praças, tirolesa, piscina aquecida e vizinhança de nariz torcido. Sem o carro, dirigiam um velho Gol 92 da avó, parado na garagem havia mais de uma década. Os vizinhos, em belas casas de mais de um milhão, viravam a cabeça para olhar o golzinho se arrastando. Ela tinha vergonha — não gostava de admitir. Temia que, ao buscar vida melhor longe da violência urbana, tivesse lançado a filha ao estigma de ser “a menina mais pobre do condomínio”. Aquela cujos pais dirigiam um Gol 92 quando ela nasceu.
Respirou fundo e olhou pela janela. No reflexo, viu uma mulher de sua idade apertando uma meia de bebê contra o peito e sorriu. A mulher sentiu o olhar e retribuiu. Sem saber como explicar, Silvia tirou o babador da bolsa e mostrou.
— Quantos meses tem o teu? — perguntou a moça.
— Um ano e um mês.
— Ah, já é grandinha!
Silvia achou graça. Até pouco tempo, dizia que Olivia era recém-nascida, mesmo com a boca cheia de dentes. Custou a se desprender dessa ideia; mas “grandinha” para o seu bebê careca era demais. Para evitar o comentário, perguntou:
— E o teu?
— Três meses. Estou fazendo adaptação na creche. Mês que vem volto a trabalhar.
Silvia não conseguiu conter o semblante de pena. A mulher balançou a cabeça:
— Eu sei. Ele é tão pequeno… meu coração parece que vai arrebentar.
Silvia sentiu pena daquela mãe. Pensou na injustiça do mundo e, sem saber como consolar:
— Na Finlândia, as mães recebem até dois anos de licença.
— Dois anos recebendo? Ah, se fosse aqui a mulherada ia ter filho atrás do outro.
Silvia riu. Não pensava assim; acreditava em direitos e em políticas públicas. Apenas disse:
— Acho que não. Ser mãe dá trabalho.
A outra riu, agora secando lágrimas, e levantou.
— Obrigada pela conversa. Minha parada é aqui.
Silvia seguiu em silêncio até o destino.
O campus universitário era lindo: jardins bem aparados, pergolados floridos, prédios coloridos e uma área de contêineres com sushi, roupas descoladas, brechó vintage e até uma pequena galeria. Um lugar incrível para trabalhar e que, não fosse por Olivia, amaria todos os dias. Mas, assim que avistou a universidade, os peitos doeram. Olivia devia estar com fome.
Correu ao laboratório de ergonomia e inclusão, onde poderia usar o esgotador em paz. Ao abrir a porta, deu de cara com a chefe e toda a equipe.
A chefe era uma mulher no fim dos 50: bonita, moderna, bem-vestida, inteligentíssima — o tipo de mulher que Silvia esperava ser um dia.
— Quem é vivo sempre aparece — disse, sorrindo, e a abraçou.
Ela não tinha como saber que o peito de Silvia estava uma pedra por causa do leite. Mesmo com dor, Silvia não disse nada. Já a desapontara de tantas formas desde que Olivia nascera; não cometeria a ingratidão de reclamar de um abraço.
— E então, lembrava o caminho?
— É mais longe do que eu lembrava. E mais bonito. Na última vez, nem metade daqueles contêineres existia.
— Espera até ver à noite. Tudo iluminado, varal de lâmpadas, música ao vivo quase sempre. E coisa de nível.
— Parece um ótimo lugar para trabalhar.
— É maravilhoso, sim, e está só esperando você.
Silvia percebeu a crítica velada. Não havia pressão explícita, mas comentários pingando um milhão de gotas no algodão da culpa, fazendo-a sentir a pior bolsista do mundo.
O dia transcorreu bem até o almoço, quando surgiu o dilema recorrente: a questão racial.
A mesa cheia, colegas contando novidades. Alguém pediu:
— Mostra como está a Olivia!
Ao puxar o celular, Silvia já sabia o que viria.
— Ai, meu Deus! Como ela é linda!
— É, sim — respondeu.
— Parece capa de revista! Já pensou em colocá-la numa agência de modelo mirim?
— Não sou muito adepta dessas coisas.
Veio a pergunta fatídica:
— Mas ela é loira de olho azul? A quem puxou?
Silvia não era branca. Parda, típico fenótipo brasileiro, desde a gravidez passou a ouvir como seria “bom” a filha parecer com o pai. Imagina o azar se tivesse seus olhos! As pessoas não consideravam o quanto era desconfortável ouvir que a filha teria azar em parecer com ela — ou com a família dela.
— Nossa, mas você teve muita sorte! Ela é todinha o seu marido! Não tem absolutamente nada seu! — disse uma bolsista nova.
Vários confirmaram, rindo, mastigando, sem notar a enxurrada de racismo. Silvia pensou em interromper e “estragar” o almoço, mas a chefe era tão correta com ela que preferiu não colocar o elefante na mesa.
O resto do dia correu sem sobressaltos. Ela realizou tarefas, delegou responsabilidades aos bolsistas de iniciação — que, se não recebessem tudo mastigado, passariam o dia no streaming — e iniciou o retorno de três conduções: ônibus, trem, ônibus.
Já escurecera quando o trem parou numa estação que não era a sua. Todos começaram a descer. Silvia tirou os fones e perguntou o que acontecia. Uma mulher nervosa respondeu, andando rápido:
— Tem uma grande manifestação no centro. Estão deitados no trilho da estação central.
Antes de Olivia, Silvia não perdia uma manifestação. Sentiu-se deslocada. Agradeceu, pegou o telefone para descobrir onde estava. A mulher já ia longe quando gritou:
— Moça, sabe por que estão se manifestando?
— Passagem de ônibus, acho! — devolveu a outra, de longe.
No mapa do celular, tentava se situar quando o marido ligou:
— Amor.
— Alan, agora não é um bom momento.
— Eu sei. O centro está em guerra. Estou há horas tentando te ligar. Fui até lá tentar te pegar, mas está tudo fechado; não consegui chegar nem perto.
— Você foi até o centro que está em guerra? E Olivia?
— Com a sua mãe. Está tudo bem.
— Tudo bem? — ela suspirou, aliviada. — Ela comeu?
Não ouviu a resposta. Um carro passou devagar e o vidro abaixou lentamente.
— Moça? — uma voz masculina, de dentro, gelou-lhe o sangue. — Guarda o telefone. Aqui não é muito seguro.
Pela primeira vez, olhou em volta. O lugar era assustador: lixo na rua, pessoas em situação de rua aquecendo-se em latões em chamas, casas velhas, olhares curiosos. Jogou o telefone na bolsa. Tudo o que menos queria era chamar atenção ali.
Uma mulher, apoiada no batente de uma porta com cortina de contas, sorriu com malícia:
— Tá perdida, coração? Quer entrar?
— Não, obrigada — respondeu, firme. — Minha bebê me espera.
— Você que sabe — disse a mulher, rindo.
Um homem mancando, a perna ensanguentada, caminhava em sua direção. Ninguém parecia perceber o absurdo da cena. Como um lugar assim existia na sua cidade, sem que ninguém comentasse?
Sem saber para onde ir, viu uma senhora de aspecto religioso, andando apressada e evitando olhares. Parecia saber o caminho — e isso bastava. Silvia acelerou. Ao notar a aproximação, a senhora assustou-se e desatou a correr numa velocidade impressionante para a idade.
— Senhora! Espere! — gritava Silvia. — Eu só quero voltar para a minha bebê! Eu não vou lhe assaltar!
Ao ouvir “assalto”, a velha reuniu forças e correu ainda mais. Silvia não abrandou. A senhora correu até a porta da igreja e parou ali, segurando o batente. Não entrou. Apenas ficou imóvel, de costas para Silvia.
Silvia diminuiu o passo. Ia dizer algo, quando a velha virou o rosto por cima do ombro, sem mover o corpo.
O giro foi lento demais. Errado demais.
A luz da rua revelou pequenos pontos escuros presos à pele. Um deles se mexeu — deslizou até cair no degrau com um som quase seco.
Silvia gelou.
A velha sorriu, mostrando os dentes tingidos de um verde que Silvia já tinha visto naquele dia.
— Você me achou.
— Mas não foi intencional — disse Silvia com convicção. — Não estou mais perdida. Se me der licença, já vou indo embora.
— Não está mais perdida? — a velha gargalhou. — Fui eu quem lhe mostrou o caminho.
— Está bem, obrigada, mas agora já vou andando.
— Ainda não — disse com convicção. — Antes quero lhe dar um presente.
Obviamente, Silvia pensou em recusar. Não havia nada no mundo que a fizesse aceitar qualquer coisa daquela coisa. Mas isso foi antes de ela mencionar qual seria sua oferta.
— Posso ajudar com sua filha.
Ela fechou os olhos. Era seu calcanhar de Aquiles. Ela não aceitaria nada. Exceto aquilo. A velha deu um sorriso vitorioso. Ela sabia disso.
— O ponto-chave de todo esse seu sofrimento é algo tão simples que, depois que eu falar, vai fazer todo o sentido. Você quer ouvir?
Silvia encheu os olhos de lágrimas e apenas balançou a cabeça afirmativamente.
— Então. O grande segredo é que nenhuma criança é perfeita. Absolutamente nenhuma. A sua bebê não come, o da sua amiga demorou para falar, tem uma ex-vizinha sua cujo menino de dois anos até agora não deu um passo. Você sabia?
Silvia não sabia nada sobre seus antigos vizinhos, então apenas negou.
— Mas aposto que sua filha se destaca em outras coisas além de não comer, não é?
— Se destaca, sim — falou ela rapidamente. — Ela falou gato e café com nove meses e está adiantada em três meses em todos os marcos de desenvolvimento do bebê!
A velha riu.
— Exceto comer.
— Sim.
— Então, aqui está o segredo, e eu posso lhe ajudar. Se você parar de perder tempo focando no que sua filha não faz e se dedicar mais a espalhar aos quatro ventos o que ela faz, eu garanto que essa angústia vai passar. Você não fez um post falando sobre o gato e o café? Aposto que praticamente todas as suas amigas ficariam com inveja.
— Eu não exponho minha filha em redes sociais.
— Ah, isso é uma pena — disse a velha, desapontada. — Mas não precisa ser com foto do rosto. Pode ser uma foto embaçada, com ela de fundo. Apenas falando como ela é esperta e especial. Você gosta de escrever crônicas, não gosta?
— Eu não acredito que minha filha começaria a comer com isso.
— Ah, isso não, mas uma hora ela vai comer, minha filha. Ou você tem tanto medo de que a menina vá chegar à faculdade mamando no peito? Mas eu prometo que você passaria a se sentir mais leve e menos culpada.
Estendeu a mão.
— É minha promessa.
Silvia não precisou perguntar. Ela entendeu o que aquilo queria. De alguma forma, ela se alimentava de inveja e queria usá-la para isso.
— Eu não preciso apertar sua mão para decidir se vou falar o quanto minha filha é especial.
— Mas precisa para garantir meu presente. A cada mãe que você fizer sentir inveja, automaticamente eu lhe repasso uma parcela de satisfação. Eu garanto que isso vai aliviar seus problemas de uma forma que você não imagina.
Silvia olhou para a mão estendida. A proposta era tentadora, mas utilizar sua bebê para fazer outras mulheres sofrerem lhe parecia monstruoso. Então saiu correndo, para longe dali, sem olhar para trás.
Algum tempo se passou depois disso e, embora Silvia jamais se arrependa de não ter aceito o acordo, cada vez que ela posta alguma coisa sobre sua filha, ela se pergunta se, de alguma forma, está alimentando aquele monstro de dentes gosmentos.