Sheisa Amaral · Crônica
Que cor sou eu?
Estou há quase uma hora em frente ao computador, olhando para a ficha de inscrição de um concurso de crônicas. A princípio, é uma pergunta simples: cor. Mas para mim, essa pergunta nunca foi tão simples. Fui registrada como branca, mas, conforme crescia, as pessoas passaram a me chamar de moreninha, índia ou escurinha. Meu tio me chamava de moreninha cor de cuia — sabe, a cuia do chimarrão? Talvez seja uma referência que só os gaúchos entendam. De qualquer forma, desde cedo, soube que não era branca, mas também não era negra. Eu estava em algum lugar no meio.
Você deve estar pensando: essa pessoa é parda, qual o problema? O problema é que ser pardo no Brasil é muito mais complexo do que parece. Por causa do racismo estrutural, existem pessoas da minha cor que se ofendem quando eu digo que sou parda, como se eu estivesse as colocando em um lugar de desprivilégio. E eu entendo esse incômodo. Quando era mais nova, achava que dizer que era branca pudesse me proteger das piadas disfarçadas de brincadeiras que me acompanharam a vida inteira, mas nunca pôde.
Dizer que sou branca nunca me trouxe benefício algum — na verdade, sempre teve o efeito contrário. Toda vez que afirmava isso, surgiam risadinhas abafadas, braços pálidos se encostando ao meu sem permissão. Logo vinham comentários carregados de ironia: “Que coisa linda essa sua cor! Olhe para a minha, de palmito. Daria tudo para ter o seu bronze!” Mas eu sabia, no fundo, que jamais dariam. Ou ainda algo mais direto: “Você se acha branca mesmo?” Como se eu não conhecesse a cor da minha própria pele. Como se eu não soubesse que minha tataravó, Nena, era negra retinta, escravizada na cidade de Itaqui, com as costas marcadas pelas chibatadas desferidas por pessoas brancas. Como se eu pudesse, ou quisesse, apagar a ancestralidade que carrego.
Nos churrascos com a família do meu marido, já fizeram piadas sobre como seriam nossos filhos se puxassem meu lado. “Imagina que coisa linda uma neguinha arrastando os beicinhos no chão.” Mas eles não achavam a coisa mais linda, e eu sabia disso. Então, que cor sou eu? Talvez minha cor seja a da resistência, da memória, da história que carrego. Ou talvez seja apenas a cor de quem vive todos os dias tentando entender onde pertence.